A vida em Lisboa sempre foi solitária. Solitária porque vivia sozinho. O acordar sozinho, as refeições partilhadas com ninguém, o vinho a fazer-me companhia, o desejar boas noites a mim próprio. Passado algum tempo já não me fazia confusão, mas este sentimento de afastamento e esquecimento nunca me largaram. A vida aqui foi sempre um turbilhão. Fora de casa eram os cafés e os cigarros, as pessoas a passarem na rua, o Sr. Manuel do café. A agitação do dia das ruas do Chiado e as luzes da noite do Bairro Alto. A humidade da tarde, naquela calçada lisboeta polida pelo tempo. As paredes brancas, sujas e velhas da cidade, o seco da noite, a garganta seca depois de um copo de vinho.
Acordava de manhã, muito tarde, já era de tarde. Os passos lá fora. Calmos. Irregulares. A senhora de preto que caminhava apressada, mas devagar, com meia dúzia de batatas num saco, bolachas, o xaile. O preto por tradição vestido, assentando como um fardo que a própria tradição acarreta a quem o transporta. O primeiro cigarro do dia, já sentado na mesa da sala, computador ligado. Este magnetismo da luz do ecrã a queimar-me invisivelmente os olhos. As teclas, que desde pequeno me fascinaram, escrevinhando letras soltas na máquina de escrever, antiga, do meu pai. O almoço, feio, feito num microondas mecânico, doente. A escrita nunca me saia antes do café da tarde, o primeiro. A barba por fazer, pasta dos dentes, água na cara. Vestia umas calças de ganga, o cheiro de tabaco há anos entranhado. A rua. O ar de Lisboa sempre me deu vida. Sentado no café, o Chiado, as árvores, os táxis, as pessoas. Duas caras reconhecidas por cada duzentas que observava. O café, quente, escuro, a espuma e o copo de água. E ali ficava mais horas. Sentado, o fumo a sair-me por entre os dedos, a noite a levar o dia e o bloco de notas.
Escrevia qualquer coisa, escrevia sempre qualquer coisa.