caminho. e por baixo dos meus pés a calçada move-se como areia. terra, daquela terra suja e pó. ando para a frente e para trás, como um velho comboio encaixado em ferro que tem que ir só porque sim. dou voltas e visito as mesmas ruas mil vezes por dia. é tarde, tarde-noite e não vejo o sol. há estrelas lá em cima mas não querem brilhar. a lua está cheia mas, é mesmo, eu nunca a vi tão pequena. pelo caminho encontro máscaras, aqui e ali. pego na primeira e coloca-a junto à cara. cheira bem. os buracos para os olhos são pequenos de mais, e rasgados, e mal consigo ver, por isso tropeço. viro a esquina, outra caída ali. pego nela mas fica-me grande. cai-me da cara, não a consigo segurar junto a mim. já estou a andar há semanas e vejo-as em todo o lado. grandes, pequenas, a preto e branco, com sorrisos rasgados e caretas horríveis. com cheiros que não esqueço, com sabores desagradáveis. detesto máscaras. não as compreendo. são falsas. algumas nem elástico têm! máscaras com buracos para os olhos que não deixam ver. máscaras com bocas que não dizem a verdade. máscaras. mas guardo-as todas, com medo de um dia serem a única recordação que trago.